PEREIRINHA: UM SERGIPANO QUE DOBROU O DESTINO

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Amilcar Amaral Couto – Analista Legislativo da Câmara dos Deputados
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PEREIRINHA: UM SERGIPANO QUE DOBROU O DESTINO

João Dino dos Santos

Brasília – 2014

Apresentação

Talvez não haja outra lição maior do que a operada pelo exemplo. Quando temos alguém a nos ensinar o caminho, a vida parece mais fácil, tem norte e rumo.

Meus irmãos, Antônio, Rita e Mário – Tadeu se foi prematuramente –, e eu sempre tivemos de nosso pai ensinamentos simples, mas fecundos e duradouros.

Não são todos os dias que se encontra alguém que literalmente dobrou o destino. A perspectiva de futuro de nosso pai, quando criança, era muito limitada, sobretudo, em Propriá, no interior de Sergipe.

É impressionante a força e a determinação do Pereirinha na árdua tarefa de vencer adversidades e superar obstáculos.

Nosso pai é um cidadão comum. Não foi muito longe nos estudos, mas a paixão pelos livros o levou a ter o conhecimento de muitos bacharelados.

Ajudou-lhe muito a memória prodigiosa, bem acima da média, que lhe permite guardar informações em detalhes.

Todos os nomes e datas que meu pai me forneceu em dois encontros, anteriores à elaboração deste conto, foram verificados. Estavam corretos.

Quantos de nós chegarão aos cem anos, ainda mais com uma memória dessas?  Certamente, poucos, pouquíssimos!

Nosso pai é apenas um servidor público cumpridor de seus deveres. No seu anonimato, como motorista, nunca teve uma falta ao serviço, nunca bebeu, fumou ou jogou.

Exatamente por isso é grandiosa a história de João Pereira dos Santos, reproduzida neste conto, Pereirinha: um Sergipano que Dobrou o Destino.

Como nos ensinam os historiadores contemporâneos, a vida da Nação não se emoldura apenas dos grandes feitos, dos grandes homens, dos triunfos e das conquistas.

A história aviva-se e aproxima-se mais da realidade quando contada por meio de trajetórias como a de nosso pai e, com certeza, a de tantos outros milhares de brasileiros.

Que bom poder oferecer este conto como singelo presente nos cem anos de vida de nosso pai.

Deixo registrado para as novas gerações dos Pereira dos Santos – e para a juventude – uma história singular e incentivadora para quem deseja dar forma ao próprio destino.

É uma honra poder contar a história de João Pereira dos Santos, o Pereirinha, nascido em 10 de junho de 1914, filho de Gaudêncio Pereira dos Santos e Maria Jardelina dos Santos.

Escolhi a primeira pessoa, porque me pareceu mais natural, mesmo correndo o risco de alguma distorção no recorte dos episódios e fatos.

Se isso acontecer em algum momento do texto, perdoem-nos os leitores. Esperamos que não seja grave.

Agradeço aos meus irmãos pelas críticas, em especial, a Rita Maria, minha madrinha, que fez uma bela revisão.

João Dino dos Santos

Índice

A Notícia ——————————– 6

O Exército——————————–9

O Voo mais Alto ———————- 11

Os Vargas I ——————————13

O Casamento————————— 15

Os Vargas II——————————17

A Câmara – Rio de Janeiro —— 20

A Câmara – Brasília——————25

A Aposentadoria——————— 30

A Recompensa———————— 35

A Notícia

A notícia caiu sobre minha cabeça, de menino pé no chão, como se fosse um mundo. Senti-me uma pobre formiga esmagada por um pé incauto.

A realidade, a partir daquele momento, seria completamente diferente para mim, para os meus irmãos e para a minha querida mãe, Maria Jardelina dos Santos, Doninha.

Não que fosse uma novidade para qualquer família nordestina, naqueles rincões do sertão sergipano, à beira do São Francisco, mas meu pai, Sr. Gaundêncio Galentino dos Santos, resolveu largar a família em Propriá e se meter mundo afora.

Daquele dia em diante, ouviria de notícia dele apenas que foi para as bandas de Minas Gerais, região de Governador Valadares.

Se algum dia ele desejou voltar ou mandar recado, não sei.

Correios, naqueles idos de 1923, eram símbolo de progresso, como os e-mails de hoje.

E o progresso quando muito chegava à capital, Aracaju.

Eu era o mais velho, seguido de Murilo, Edgondes, Ester, Zé Pereira e Beta. Mais tarde, minha mãe teria o Ovídio, com Sr. Antônio, cabra baixinho, mas valente, com quem viveria por muitos anos até que Deus o levasse.

Não sei se é muito fácil imaginar o que era a perspectiva de futuro para um menino como eu naquele pedacinho de Brasil, distante de quase tudo.

Mas acho que dá para perceber que já era uma vitória ter vingado e sobreviver às intemperes climáticas, às doenças e tantos outros perigos que atravessam a vida no interior do Nordeste, ainda mais nos idos de 1920.

A notícia da partida de meu pai endureceu a realidade e me impôs uma vida difícil em que, por diversas vezes, tive de dobrar o destino.

Embora não tenha concluído o antigo primário, na leitura sempre encontrei o prazer do conhecimento e da cultura. Os livros são para mim o caminho para o futuro do Brasil.

Não cheguei aos cem anos porque quis ou planejei. Cheguei porque o Criador assim o desejou e me permitiu transformar as adversidades em vitórias e as vitórias em pontes e portas para novos sonhos de futuro.

 

O Exército

Se foram os anos, iguais, pesados e sem muitas novidades, um após o outro. Como num piscar de olhos, já chegara o tempo de me alistar no Exército Brasileiro, para servir a minha pátria.

Queria ser soldado, com orgulho e bravura de nordestino destemido, filho da cidade de João Lampião, irmão do Rei do Cangaço.

Zé Pereira, meu irmão, chegou a servir cachaça a Lampião.

Ali pelos dezenove anos, fui para a casa do tio Doroteu, irmão de minha mãe, em Aracaju. Ele procurou um homem influente, Sr. Curvelo, que me abriu as portas para entrar no Exército.

O problema é que eu tinha uma hérnia e precisava passar pela inspeção médica sem que a percebessem.

Caso contrário, nada do que viria a viver em Aracaju, no Rio de Janeiro e em Brasília teria acontecido.

Segui as instruções direitinho: na hora H, estufei a barriga tampando a boca com a mão, e a danada da hérnia resolveu me ajudar na tarefa de dobrar o destino.

Passei no exame e me tornei soldado do Exército Brasileiro em 11 de setembro de 1933.

De sobra, operaram minha hérnia!

 

O Voo mais Alto

Dentro de mim, batia uma vontade de ganhar o mundo, conhecer a então Capital do Brasil, o famoso Rio de Janeiro. Como tantos nordestinos que ajudaram a construir a economia deste imenso e rico país, queria ir para a cidade grande, tomar novos ares.

Pedi transferência para o 14 RI, em Niterói, no antigo estado da Guanabara. Já no segundo dia, tirando serviço, quase que o destino me prega uma peça.

O Comandante queria que eu dissesse o nome de quem tinha chegado atrasado ao restaurante.

Eu disse que não sabia!

Mas não foi por rebeldia não!

É que eu não conhecia ninguém e não tinha como saber quem chegou atrasado. Sorte minha que o Comandante aceitou a ponderação e revogou a ordem de prisão.

De qualquer forma, quero aqui abrir parênteses: nunca tive vocação para dedo-duro, nem para tirar nada de ninguém.

Passei pelo Estado Novo, pelo Catete nos anos que antecederam ao suicídio de Vargas e atravessei boa parte da Ditadura trabalhando com políticos influentes.

Nunca entreguei ninguém, nem aceitei fazer parte do velho SNI. Na verdade, ninguém nunca me fez essa oferta. Graças a Deus!

 

Os Vargas I

Já em Niterói, o Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, mandou selecionar uns soldados por bom comportamento. Fui escolhido para servir na Subdiretoria da Cavalaria.

Chegando lá, caí nas graças do Major Heraclides Fontella de Oliveira, casado com D. Inês, que, assim quis o destino, era sobrinha de Getúlio Vargas.

Como eu tinha carteira de motorista, o Major me designou para servir ninguém menos que o Coronel Viriato Vargas, irmão de Getúlio Vargas.

Cheguei a estar na Zona de Guerra. Se a Segunda Grande Guerra continuasse, teria embarcado para os campos de batalha da Europa junto com a gloriosa Força Expedicionária Brasileira – FEB.

Mas meu destino era outro. Pouco antes, a Guerra terminou. Viva!

Quando saí do Exército, fui trabalhar na Central do Brasil e, por pouco, minha história tomava um rumo bem diferente. Um cavalete caiu por cima de mim e, não fosse a mão do saudoso Dr. Sávio Pereira Lima, eu teria ficado entrevado.

Mas que nada, este sergipano, por obra e graça do Senhor tinha de continuar a missão de dobrar o destino.

 

O Casamento

No Rio de Janeiro, entre andanças e namoricos, conheci a D. Emília, e acabamos por nos casar.

Logo, nasceu o Antônio José, que seria o primogênito dos nossos cinco filhos. Além do Antônio, vieram a Rita Maria, o Mário Jorge, o Valter Tadeu e o João Dino.

O Tadeu nasceu com cardiopatia congênita cianótica, e, naquela época, os recursos não eram como hoje. Não conseguiu resistir e morreu no dia em que completou sete meses.

Os outros quatro filhos vingaram!

Estão firmes e fortes, mas vivem dizendo que não foram feitos da mesma madeira que eu… Duvidam que chegarão aos cem anos.

Não digo nada, mas quem sabe disso é Deus!

Cada minuto de vida é uma dádiva e, se tem um ditado certo feito boca de bode é que quem morre na véspera é peru – mesmo assim, se tiver panela de pressão, morre é no dia.

 

Os Vargas II

Assim que nasceu o Antônio, eu estava de férias, mas o filho do Coronel Viriato, Dr. Vargas Neto, para quem continuei a prestar serviços de motorista depois do Exército, disse no velho sotaque gaúcho:

“- Pereira, amanhã vou te precisar.”

Vocês sabem como são essas coisas, quem está acostumado a cumprir ordens, não titubeia, nem faz cara feia.

É claro que a Emília não gostou nem um pouco da ideia, e ela tinha a sua razão. Mas lá fui eu como um brasileiro trabalhador e cumpridor dos meus deveres.

No dia seguinte, estava eu à disposição do Dr. Vargas Neto, que me disse: – Vamos à Câmara dos Deputados.

Chegando lá, deu ordem para que eu o aguardasse.

Na volta, imaginem só a notícia: – Pereira, amanhã se apresente ao setor de pessoal. Você está nomeado como motorista da Câmara dos Deputados.

Sabe lá o que é isso, gente?!

A vida iria tomar um rumo completamente diferente. Era o sergipano, mais uma vez, driblando o destino.

Valeu contrariar a Emília, como valeu!

Em 6 de fevereiro de 1946, tornei-me servidor da Câmara dos Deputados.

Foi uma espécie de prêmio. Os Vargas tinham um carinho especial por mim. Da minha parte, nutria grande consideração pela família, em particular, pelo Coronel Viriato e por D. Bica.

Eu sempre ajudava no que podia.

Certa feita, ela queria dividir uma sala. Chamaram engenheiros, fulano e cicrano, mas botaram um monte de empecilho para fazer a tal da divisória.

Então, eu tomei a liberdade     e      disse:

“- Consigo fazer a divisória de madeira e com apenas dois furos de uns dez centímetros na parede, sem alterar muita coisa”.

Lá fui eu exercer um ofício que aprendi, meio de marceneiro meio de carpinteiro – coisa muito útil ao longo de toda a minha vida.

Aliás, sempre fui pelo lado mais prático e procurei passar esse ensinamento a todos os filhos.

  1. Bica adorou a divisória!

 

A Câmara – Rio de Janeiro

Depois de nomeado motorista da Câmara dos Deputados, fui designado para servir o 4º Secretário, Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar.

Até aí, não havia problema algum, mas o Deputado era do Partido Comunista, e começaram a seguir o carro da Câmara para onde quer que fôssemos.

Chegaram a me perguntar se eu sabia onde estava Luiz Carlos Prestes.

Eu não era comunista e só cumpria com o meu dever de conduzir o Deputado. Como é que iria saber de Luiz Carlos Prestes?

Mas achei prudente ir falar com o General Góes Monteiro, que deu ordem para não seguirem mais o carro e falou em minha defesa.

A resposta dos agentes foi que, de fato, eu deixava o Deputado nas reuniões do partido, mas ficava aguardando na igreja.

Nos anos seguintes, montei uma casa e trouxe minha mãe e meus irmãos para o Rio de Janeiro, exceto o Edgondes, que falecera, e o Murilo, que preferiu ir fazer a vida na Bahia. Virou dono de posto de gasolina, em Feira de Santana, e ficou rico.

Por incrível que pareça, só voltaria a ver meu irmão Murilo quando da morte de nossa mãe. Pouco tempo depois, ele também morreria num acidente de carro.

A saga do nordestino que sai do sertão em busca de melhores condições de vida sempre tinha essa característica de apartar as famílias e fazer com que pai e mãe – ou filho – ficassem sem se ver por anos, décadas.

A vida passa e a gente aprende muito a viver de lembranças.

Com a ajuda do Vice-Presidente da Câmara dos Deputados, fui empregando os meus irmãos que vieram para o Rio e o marido de minha irmã Beta.

Nesse particular, há um fato curioso: quando Sílvio, marido de Beta, chegou ao Rio, consegui colocá-lo na Câmara, porque o Zé Pereira já tinha emprego e achou mais justo ajudar o cunhado.

O Sílvio não chegou a trabalhar nem duas semanas na Câmara e largou o serviço.  Mais tarde, largaria a família.

Aí não foi mole convencer o Vice-Presidente a empregar o Zé Pereira na vaga, mas com jeitinho, consegui.

O Zé e o Ovídio se aposentaram pela Câmara. Ovídio enricou porque sempre teve talento para multiplicar o dinheiro, Silvio morreu vendendo pipoca, e meu querido irmão, Zé Pereira, também nos deixou mais recentemente. Teve câncer de próstata, mas morreu mesmo de infarto.

Mocinha também já se foi. Ela casou-se e morou a vida inteira em São Paulo. Zé Pereira e eu sempre a ajudamos de alguma forma.

Beta e Ovídio estão bem e, pelo jeito, seguem o mesmo caminho que eu: vão dobrando o destino.

Vivi os anos de uma grande abertura democrática no Brasil, com a vigência da Carta Constitucional de 1946.

Acompanhei a vida política como um expectador privilegiado, que ouviu muitas histórias e viveu muitos dos episódios.

Com os Vargas, aprendi lições de respeito e lealdade, de como tratar a todos bem, sem qualquer distinção.

Aliás, deixo aqui meu registro: não acredito que mataram Getúlio. Ele suicidou-se, porque estava contrariado com as forças que o pressionavam e com a República do Galeão.

 

A Câmara – Brasília

         Com a posse de Juscelino, o que ninguém acreditava virou realidade: Brasília, a Nova Capital ou a Capital da Esperança.

Olhe, o que havia de pessoas contrárias à transferência não dava para acreditar. Ninguém queria sair do Rio de Janeiro e vir para o Planalto Central, onde havia um gigantesco canteiro de obras e muita, muita poeira.

Brasília surgiu literalmente do nada, e tudo aqui precisou ser feito, das moradias aos mercados, das ruas aos bairros.

Por muito tempo, havia poucas quadras construídas no Plano Piloto. As primeiras foram a 107, a 106 e a 108. A 307 foi um acampamento com casa de madeiras durante anos.

Mas o fato é que, querendo ou não, fui transferido para Brasília, aonde cheguei em primeiro de maio de 1960. Oito dias antes de meu caçula, o João Dino, completar um ano.

Brasília foi uma cidade que me abriu inúmeras possibilidades. Fui um dos poucos motoristas que ganharam um apartamento na 107 sul, lugar de funcionário do alto escalão, de suplentes e alguns deputados.

Não sei bem por que me deram o privilégio, mas, naquela época, era motorista do Líder do Governo Juscelino.

O ordenado, na década de sessenta, não era lá grande coisa, mas havia a dobradinha e algumas regalias.

Para um menino que dobrou o destino, tudo era muito mais do que poderia esperar.

A Câmara era um lugar muito bom para se trabalhar. Havia um ambiente de camaradagem e ninguém perguntava quem você era ou de onde você vinha.

Logo que cheguei a Brasília, fui nomeado subchefe dos transportes da Câmara. O Alvarenga, que também já passou dos cem anos, era o chefe.

Naquele período, por vezes, mandei os vendedores de peças colocarem o desconto da minha comissão em favor da Câmara. Nunca fiquei com um prego de alguém e achava que não era correto e justo receber comissão na venda das peças.

Quando menos esperávamos, o Brasil mergulhou em 1964. Como eu disse certa feita, não houve Revolução nenhuma. Foi tão-somente um acerto democrático.

Ao longo dos anos de chumbo, trabalhei com figuras importantes, como Rondon Pacheco, com quem, recentemente, tive a oportunidade de falar. Como eu, parece ter sido escolhido para ficar aqui por mais alguns anos.

Trabalhei Com o Diretor Geral da Câmara, Dr. Gigliotti e com lideranças política importantes, como Aliomar Balieiro, Abelardo Jurema, Gustavo Capanema, Pedro Aleixo, Oscar Correia, Nereu Ramos, Godói Ilha, Bento Munhoz da Rocha e Armando Falcão.

Aprendi a ouvir muito, mas ficar quieto e dizer somente o necessário, se fosse necessário.

Tive a oportunidade de criar meus filhos em Brasília e lhes proporcionar um nível de vida com o qual eu jamais poderia sonhar nos meus tempos de menino.

Eu não estudei quando criança, mas sempre amei os livros, o prazer de aprender uma coisa nova todos os dias, não importa exatamente o quê.

Mas ler e aprender sempre foi um hábito que trouxe comigo ao longo da vida. O dinheiro acaba, e a cultura, não!

Fui até a quarta série, mas nunca, nunca parei de estudar ao longo de toda minha vida.

Consegui estimular meus filhos ao conhecimento permanente e contínuo. Tanto é que todos ingressaram no serviço público e, à exceção do mais novo, já estão aposentados e com as famílias criadas.

O mais velho, o Antônio, é médico, a Rita é jornalista, o Mário é comerciante e o Dino professor.

Quem poderia dizer, naqueles idos de 1924, que um dia eu teria meus filhos empregados, estudados e bem de vida?

Esta é para mim uma das maiores vitórias da vida: ver meus filhos realizados, como pessoas de sucesso, respeitadas, e chefes e mãe de família.

Fiz minha parte e sempre procurei operar pelo exemplo. Nunca fumei, nunca bebi e nunca joguei.

Se o destino me permitiu dobrá-lo, por que não deixar de aproveitar as oportunidades dadas por Deus.

 

A Aposentadoria

         Quando a ditadura recrudesceu, em 1968, eu já estava me aposentando.

Foi pela Lei de Praia, aplicada ao militar que tivesse servido na zona de guerra definida pelo Decreto 10.480-A, de 1942, na vigência do estado de beligerância, que apenas teve fim em 16 de novembro de 1945. A Segunda Guerra Mundial terminou em 2 de setembro de 1945.

Mas naquela época, o ordenado não era lá essas coisas não. Uma semana depois, eu já estava com um carro de praça para complementar a renda. Era um corcel amarelinho, TX 2076, com o qual eu fazia ponto na 409 Sul.

Fiquei dez anos na praça. Por um bom tempo, fiz ponto no aeroporto de Brasília, exercendo a profissão que abracei, a de motorista, e que sempre exerci com carinho e dedicação, tanto na Câmara quanto como taxista.

Foi dirigindo o taxi que, já divorciado acabei conhecendo minha mulher e companheira, Terezinha Lucas Evangelista, com quem vivo há mais de 35 anos.

Ela tem lá suas manias e sistemas, como, aliás, todos nós que vamos ficando velhos, mas cuida de mim como um menino.

Não há como negar, sem a Terezinha, talvez não tivesse completado os cem anos, porque só quem cuida sabe o valor verdadeiro da vida.

Aposentei-me por tempo de serviço e, com certeza, bastante novo e cheio de energia. Por isso, não havia como pensar em ficar sem trabalhar.

É bom que se diga: para mim, trabalhar é vida e vitalidade. Orgulho-me de trabalhar até hoje na portaria do Palácio da Justiça, para onde fui convidado, em 1978, pelo Ministro Armando Falcão.

Na portaria privativa, vi passar inúmeros ministros, políticos, presidenciáveis e presidentes. Tratei a todos com a mesma distinção e cortesia.

Mas não vou negar que nutro admiração especial, primeiro, pelo Ministro Armando Falcão, porque foi quem me deu a oportunidade de trabalho, segundo, pelo Ministro Tarso Genro, que me tratava com um carinho todo especial, terceiro, pelo Ministro Eduardo Cardozo, que me trata com muito carinho.

Não poderia deixar de fora dessas lembranças o Ministro e Secretário Geral, Luiz Paulo Barreto, que dedicou uma vida inteira ao Ministério da Justiça.

Quero dizer também da minha admiração pelo Presidente Lula, que me recebeu em quatro oportunidades. Se todos os brasileiros se inspirassem na trajetória desse grandioso nordestino, faríamos um país diferente.

Lula é o exemplo vivo da persistência e da tenacidade de milhares de homens que saíram do agreste nordestino para construir o desenvolvimento do Brasil.

Creio que dificilmente, teremos outro Presidente que sintetize melhor a saga do povo brasileiro.

Lula é, sobretudo, a imagem da vontade de crescer e ser alguém. Esse desejo que move os corações de quem luta em favor de um Brasil mais justo e cidadão, como legado para as gerações do futuro.

Não posso me esquecer, também, dos meus amigos de portaria privativa. O João Batista e o Epitácio são pessoas que sempre me cuidaram como menino.

 

A Recompensa

         A primeira recompensa que levarei dessa vida é a da consciência tranquila, de quem cumpriu o seu dever e ofereceu aos filhos um singelo mais – creio – valioso exemplo de dedicação ao trabalho honesto e diuturno.

Quis Deus que, ao longo dos anos, o salário da Câmara dos Deputados fosse aumentando e, como na Casa, é tradição não se esquecer dos aposentados, recebi promoções até chegar ao cargo de inspetor de segurança legislativa.

Poxa, quem diria, naqueles idos de 1924, quando meu pai se foi mundo afora que um dia eu teria condições de viver confortavelmente em um apartamento na Asa Norte, em Brasília, e ter à disposição uma Mercedes Benz e um Hyundai Azera.

Para um menino pé no chão, sem muito futuro ou perspectiva, cheguei longe, muito longe mesmo.

Continuo a dobrar o destino!

Jamais poderia pensar que, aos cem anos de idade, estaria lúcido, dirigindo e com uma memória invejável.

Tenho ainda uma vontade louca de aprender e aprendo todos os dias, nos livros e nas conversas.

Sou muito franco em dizer que, se as pernas já me faltam um pouco, minha mente não se engana, nem titubeia.

Sinto apenas uma diferença hoje. Mas prefiro falar baixinho para nem Deus ouvir: acho que estão me esquecendo vivo.

Por alguma razão, só eu e o Alvarenga da velha guarda da garagem da Câmara continuamos desfrutando desse colosso de Brasil.

Sabem, eu comecei a ter essa percepção de que estava ficando para a  semente, ali pelos oitenta anos. Filhos criados, netos, bisnetos e os anos passando como se fossem apenas mais um dia.

Minha mãe se foi aos noventa anos e seis meses. Estava lúcida e contava história. Morreu de um derrame cerebral, ou, como se dizia antigamente, de velhice. Ainda ficou no hospital por algum tempo, antes de partir, como um passarinho que acorda um belo dia para a outra vida.

Eu só sei que, de repente, virei – sei lá – uma espécie de celebridade.

Ora, já saí em telejornais e no Correio Braziliense – mais de uma vez.

Fui notícia no Fantástico – quem diria?!

Recebi a Comenda da Ordem do Mérito do Trabalho Getúlio Vargas e a Medalha da Vitória da Força Expedicionária Brasileira.

Vira mexe, tem alguém me perguntando qual é a fórmula da longevidade.

Como é que eu cheguei aos cem anos de idade andando com minhas próprias pernas, sem depender de ninguém?

Se eu soubesse a fórmula, ficaria milionário!

Sei que algumas coisas ajudaram: os cuidados da Terezinha, a alimentação saudável, os exames periódicos e os exercícios físicos diários.

Mas acho que conta mesmo é a alegria de viver, o amor de transformar cada dia num minuto de sabedoria.

Conta mesmo é ver este país e acreditar nos sonhos e nas realizações.

Quando a gente para de sonhar, a vida perde o sentido.

Mas todos vocês que vieram comigo até o fim deste conto sabem muito bem que a verdade é uma só:

Deus sabe a hora de partirmos.

Se estou por aqui ainda… Se meus irmãos, Mocinha, Pereira, Murilo e Edigondes já se foram, … Se tantos amigos de longas datas já partiram – todos bem mais novos do que eu – é por que o Criador me escolheu para ficar mais um pouquinho.

Enquanto estiver neste mundo, vou continuar vivendo cada minuto, curtindo a vida, acreditando no futuro.

Leiam, estudem, amem os livros e a sabedoria!

Sigam adiante olhando para o futuro!

Com responsabilidade, carinho, amor e dedicação, trabalhem, cuidem da família e dos filhos.

Coloquem amor em cada ato de suas vidas!

Gostem dos livros!

É esta a lição deste sergipano que dobrou o destino.

Obrigado, meu Deus!