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Dissertação Jornal da Comunidade

Se você conversar com os candidatos em geral, verá que muitos deles já conseguiram passar nas provas objetivas de concursos e vestibulares, em excelentes colocações, mas não tiveram sucesso na prova discursiva. Não passo mais do que duas semanas sem alguém me contar  a mesma história: perdi o concurso na discursiva.

Mas a culpa desse relativo  insucesso é, em grande parte, do próprios professores e da forma como a disciplina Redação é dada nas escolas e na maioria dos cursos preparatórios.

Há uma tendência de se explicar para o aluno como se faz a prova do ponto de vista teórico. Diz-se para o aluno que o texto deve ter introdução, desenvolvimento e conclusão, ou que é preciso garantir a clareza, a objetividade e a concisão.

Mas pouco é feito em termos práticos para o aluno adquirir a habilidade de construir as partes do texto ou de entender, por exemplo, como livrar o texto do excesso de quês, de gerúndios, de advérbios terminados em mente, ou, ainda, como transitar da subordinação para a coordenação. Esses exercícios são fundamentais para tornar o texto mais fácil de ser entendido e garantir mais destreza ao candidato.

Redação é uma disciplina que precisa ser ministrada em oficinas, com correções comentadas, num processo dialogal com o aluno. Esse é, talvez, o diferencial entre tornar a prova discursiva frustrante ou o grande diferencial do candidato.

A Redação envolve dois requisitos básicos de quem ensina: primeiro, não basta apenas ter conhecimento teórico de como se faz um bom texto, porque escrever no dia a dia é requisito essencial para quem ensina.

Não basta, tampouco, ser um bom redator para ensinar, porque os alunos precisam das pontes do conhecimento didático e pedagógico para desenvolverem as estratégias de elaboração textual.

A outra característica essencial de quem ensina é entender que não adianta dizer ao aluno apenas o que não se pode fazer na hora da prova, porque isso não preenche as linhas da folha em branco.

Os concursandos precisam de estratégias práticas para organizarem o pensamento e para colocar as ideias no papel. Costumo dizer aos alunos que um bom caminho é sempre transformar o tema numa pergunta ou num conjunto de perguntas a serem respondidas no corpo da prova.

São estratégias simples como esta, mas muito práticas e funcionais, que vão gradativamente  desenvolvendo a habilidade do aluno para lhe dar segurança.

Ela é desafiadora ou facilitadora?

Quando falamos em prova discursiva, é sempre bom lembrar que, com louváveis exceções, é baixa a qualidade da educação no Brasil – tanto pública quanto privada. A dificuldade em se expressar na modalidade escrita vem da base do ensino e é lamentável obstáculo para a maioria da população. Vejamos o pífio desempenho de nossos alunos em testes internacionais, por exemplo.

Recebo em meu curso jovens vestibulandos e pessoas graduadas e pós-graduadas. A maioria delas tem relativo domínio da gramática e demonstra bom espírito crítico – não acredito que os jovens de hoje sejam mais alienados do que eu fui na minha juventude, até porque a Internet e as redes sociais têm um poder difusor bem mais democrático que no passado.

Agora, a absoluta maioria dos alunos tem dificuldade de expressão escrita, de desenvolver estratégias para colocar o pensamento no papel. Isso pode ser frustrante num primeiro momento, porque não tem graça alguma ficar olhando para uma folha em branco, sem sair do lugar.

Mas a redação é facilitadora quando os alunos desenvolvem as estratégias necessárias para gerar o texto no papel. Quando os alunos começam a compreender que o ser humano precisa, por exemplo, de verbos e conectivos lógicos para gerar enunciados e desenvolver as ideias, desabrocham como uma flor, ganham cor e libertam o pensamento.

Isso é um patrimônio para toda a vida, porque quem escreve bem, tem espaço garantido tanto no serviço público quanto na iniciativa privada. Para quem desenvolve a habilidade de escrever, a discursiva é facilitadora.

Uma prova em geral, já deixa o aluno tenso, uma discursiva é preocupação grande. O que deve ser trabalhado para que se perca o medo de uma prova discursiva?

Creio que, em boa parte, já respondi a essas perguntas, mas  alguns pontos valem a pena ser reforçados. É preciso entender que os candidatos terão de produzir um texto de 30 linhas, em média, em no máximo 1h20, com o texto definitivo já passado a limpo. Se você não sabe como proceder, provavelmente vai ficar tenso.

É evidente que, com tão pouco tempo disponível, não há muito  espaço para ficar divagando, porque cada minuto é precioso. Assim, o segredo é desenvolver estratégias para organizar o pensamento a partir do comando da prova e saber como gerar enunciados e desenvolvê-los por meio da conectividade lógica.

As estratégias de elaboração textual precisam estar bem treinadas, como se faz com um atleta que vai disputar uma maratona ou um piloto de avião. Não que se possa abrir mão da criatividade, mas o improviso precisa ceder espaço ao pragmatismo e ao planejamento. É preciso ser proativo em relação à prova discursiva, chegar no momento da prova com alternativas bem definidas para enfrentar o tema em termos teóricos e práticos.

Uma prova objetiva deixa o aluno relapso?

Não creio que seja bem esse o problema. A prova objetiva tem o seu lugar como verificadora do conteúdo programático, mas, pela própria natureza, oferece maior flexibilidade para o aluno na hora de responder, até mesmo quando se considera a margem para se arriscar marcando uma ou outra alternativa.

Na prova discursiva, isso não é possível, porque, ou você coloca as ideias no papel com coerência e coesão, ou está fora. A discursiva afasta a possibilidade de se arriscar,  de se dar bem na base da sorte ou outro mecanismo qualquer.

A esse respeito, não tenho dúvida de que um concurso ou vestibular com prova discursiva é bem mais seletivo e qualitativo que um com provas apenas objetivas.

Veja que hoje até os concursos para nível médio costumam ter prova discursiva, o que torna a luta mais difícil, mas, com certeza, a seleção revela-se de maior qualidade.

Professor João Dino dos Santos, autor do livro Provas Discursivas: Estratégias; Consultor Legislativo da CLDF; e professor de cursos preparatórios para vestibulares e concursos